fevereiro 2017

Divórcio: Sobrevivendo entre o Legalismo e a Libertinagem

Sem título 2

Gerson Lima

No final dos anos 80, Deus usou os ventos das circunstâncias para me levar a navegar no amplo mar de conflitos quanto ao polêmico assunto “divórcio e novo casamento”. Enquanto deveria andar sobre as águas das dificuldades, olhando para o Mestre, eu comecei a afundar, como Pedro, ao olhar para as densas e escuras ondas geradas pelas controvertidas interpretações meramente teológicas. Passados cerca de 20 anos, estou estupefato por constatar o alarmante crescimento de cristãos simples e pastores leigos dilacerados em suas consciências por terem sido feridos no campo de batalha entre os legalistas e os liberais. Depois de reler livros antigos e os recém-publicados e numerosos artigos na internet, fui surpreendido por uma sensação mista, entre tristeza e indignação, por termos nos afastado tanto do espírito de Cristo e da compaixão pelos que estão sobrecarregados por pautarem suas vidas por “manuais de regras de conduta cristã” e não pelo relacionamento com o Cristo vivo e com sua Palavra.

Também me dei conta de que boa parte dos cristãos firma-se em conceitos preconcebidos por outros e, embora concordem que seja claro o que Jesus falou sobre divórcio, são inseguros em acreditar que ele quis dizer exatamente o que disse ou em seguir exatamente o que ele disse.

Cada vez mais fica evidente que os estilos de liderança predominantes hoje têm condicionado o povo de Deus a não ler a Bíblia tal como ela é – a Palavra infalível de Deus –, mas como ferramenta de consulta de apoio aos ensinamentos dos líderes, que, conscientes ou não, têm ostentado ser os oráculos divinos. Ora, se os métodos didáticos têm produzido cristãos autômatos, mutilados da faculdade de pensar, de refletir, de questionar, em busca da verdade, então necessitamos urgentemente de nova onda de reforma dos fundamentos da Nova Aliança.

As Escrituras não são labirintos escuros onde nos perdemos em perguntas sem respostas. O Criador do Universo é o nosso Pai de amor, e a Bíblia é sua Palavra, através da qual podemos conhecer seus pensamentos e, através deles, sua Pessoa. No entanto, assim como os cientistas perdem Deus ao estudar a criação sem reconhecer a existência de um criador, deixamos de encontrar Deus na Bíblia ao estudá-la com motivação errada. Para entender os fundamentos do universo, é preciso entender as leis que os regem, o que é muito difícil quando se ignora quem as formulou e seu propósito em estabelecê-las. De forma semelhante, quem tenta entender a Bíblia usando subterfúgios humanos sem as chaves do relacionamento com o Anfitrião está fadado ao fracasso.

A Bíblia escandaliza a lógica porque não é um livro de doutrinas ordenado mecanicamente, mas a história do Deus de amor que se ocupa mais em relacionar-se com o homem do que em fornecer segredos de como viver por si só moralmente correto. A mensagem central da Bíblia é vida com Deus pela revelação de seu Filho. Sem se achegar a Jesus pela Bíblia, ela se torna um universo em caos.

O Paradoxo dos Quatro Evangelhos

Você já parou para refletir por que Deus permite transtornos de interpretações de suas palavras entre seu povo? É fundamental entendermos o que ele quer ensinar com sua abstinência de detalhes em assuntos nos quais os exigimos. Creio que ele quer nos ensinar que o segredo é conhecê-lo através do aparentemente irracional, e não como manipular os textos para torná-los lógicos. Enquanto há centenas de livros tentando explicar o que Jesus possivelmente quis dizer sobre o divórcio, ou deveria ter falado, Jesus simplesmente foi curto, objetivo, sem entrar em detalhes. É um escândalo à mente carnal Jesus resumir em pouquíssimas palavras o que os mestres da lei discutiam havia séculos!

Para piorar mais um pouco, temos quatro evangelhos com registros totalmente diferentes sobre o que Jesus falou sobre o assunto. Mateus registra (cap. 19) que Jesus estabeleceu uma exceção, concordando com a linha rabínica de Shamai, que aceitava divórcio e novo casamento sob condições muito restritas, enquanto Marcos não menciona nada disso (cap. 10). Mateus demonstra que todo o debate foi público, mas Marcos diz que, à parte com seus discípulos, Jesus elucida seu veredicto. Enquanto Mateus e Marcos contam a história em cerca de 10 versículos, Lucas – que disse que faria uma investigação minuciosa e escreveria tudo que Jesus fez e falou (Lc 1.1-4; At 1.1) – ironicamente resume tudo em um só versículo! (Lc 16.18).

E o que dizer de João? Bem, parece que piorou a questão, pois, além de descartar esse evento crucial, ele dá destaque a dois episódios que não aparecem nos outros três Evangelhos. No primeiro, Jesus abandona as multidões em Jerusalém e vai ao encontro de uma pecadora samaritana que, além de já ter tido cinco maridos, vivia com um homem ilegalmente; depois, sem deixar vestígios de como devemos proceder com pessoas em situação parecida, usa essa mesma mulher para trazer um avivamento em Samaria (Jo 4). No segundo, ele absolve uma outra pecadora apanhada em adultério quando a lei dizia que deveria ser apedrejada (cap. 8).

Nosso maior problema não é o que fazer quanto aos problemas de divórcio e novo casamento, mas a nossa atitude em relação ao conhecimento. Jesus quer diálogo, enquanto nós queremos métodos. Ele quer que nos acheguemos a ele, para então entendermos as doutrinas, enquanto nós nos achegamos às doutrinas e por isso não o entendemos. Ele quer que entendamos seu princípio geral, não sem dependermos dele para aplicar sua vontade em cada caso, enquanto nós, ao invés de nos preocuparmos com as pessoas, preferimos uma regra única para todos os casos. Assim, se ficarmos na periferia da letra que mata e não entrarmos no Espírito da letra que gera vida, seremos os fariseus modernos que condenam as pessoas.

Os Extremos do Legalismo e do Liberalismo

Os judeus deixaram de ser uma comunidade que representasse o Reino de Deus ao mundo e construíram um sistema religioso judaico. Eles usavam as Escrituras em benefício próprio e por isso manipularam interpretações bíblicas que, tornando-se a tradição judaica, anulavam as Escrituras (Mc 15). Eles não se davam conta de que, reivindicando reconhecimento e impondo suas regras, construíam seus impérios manipulando vidas – “em nome de Deus”.

Se contextualizarmos o cenário da época, será que o cristianismo, em ampla escala, é o judaísmo atualizado, e os que labutam em edificar seus ministérios, usando as Escrituras para benefício próprio, são os escribas e fariseus modernos? Será que corremos o risco de estarmos seguindo dogmas legalistas e não as Escrituras? De estarmos fixados em homens e não em Cristo? De sermos um sistema religioso no lugar de vivermos a realidade do Corpo de Cristo?

Podemos encontrar respostas a essas respondendo a outras perguntas: será que seguimos um estilo de vida cristã que desintegra a família por deixá-la em segundo plano? A família é o primeiro lugar onde vivemos a esfera do Reino de Deus? Como Igreja, estamos mais focados em programas que não geram relacionamento do que em comunhão significativa em que as pessoas são mais importantes e, por isso, ajudam-se umas às outras em suas necessidades?

A corrente mais literalista tende a condicionar o povo a não refletir por conta própria na Palavra de Deus, por enfatizar a obediência às regras. Impõe uma espiritualidade desumana, um fardo pesado que massacra o ser humano e rouba dele a espontaneidade da vida. Com isso, a Igreja perde o direito de pensar e assumir sua identidade como Corpo de Cristo.

No outro extremo, a ala do liberalismo labuta para introduzir a democracia e o universalismo, em nome da “contemporização cristã”, que preconiza os valores humanos modernos. Nesse terreno arenoso, não podemos ser edificados como a casa de Deus, visto que não encontramos os fundamentos das Escrituras e da ética cristã, uma vez que são sacrificados em nome do bem-estar humano.

O espírito aventureiro sempre vai nos encorajar a trafegar em águas turbulentas de conjecturas teológicas, a enredar-nos com os ventos de doutrinas, indo além dos limites das palavras do Mestre da paz. Se não nos contivermos com o veredicto final do Senhor quanto aos paradoxos e crises da vida humana, cairemos no rigorismo legalista ou na lassidão da libertinagem, usando partes isoladas das Escrituras. Mas a bússola que aponta o rumo da vontade de Deus está disponível aos que, acima de tudo, querem viver uma vida genuína com o Senhor e somente para sua glória.

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(Adaptado pela Revista Impacto e publicado na edição 55, a partir de um artigo escrito pelo autor em Monte Mor, SP, em julho de 2011).

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Gerson Lima
Editor da Editora dos Clássicos.


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